Portimão no alvor do século XX

O porto de Portimão, desde o século XVI, destacou-se como o mais seguro do Algarve. Daqui saíam madeiras, cortiça, laranjas e conservas de peixe até meados do século XX.

Na segunda metado do século os tempos mudaram. Deixou-se de produzir peixe em conserva, as árvores tradicionais mediterrânicas foram substituídas por eucaliptos, a cortiça escasseia. O movimento portuário, hoje, está associado ao lazer. 

Já ninguém se recorda desta imagem que representa o movimento quotidinao no porto de Portimão.

E o comérc io em Vila Nova de Portimão? Nos tempos da I República, multiplicavam-se sapatarias, chapelarias, drogarias onde se compravam todas as novidades que vinham a bordo dos navios de Lisboa, de Espanha ou do Norte da Europa. 

Será que Manuel Teixeira Gomes comprava os seus chapeús na Chapelaria Henrique Biker de Gusmão, na Rua 5 de Outubro?

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Manuel Teixeira Gomes, ofício de viver

No dia em que se comemorou o 150º aniversário do nascimento do nosso patrono, decorreu no auditório do Museu Municipal de Portimão, o lançamento de uma biografia de Manuel Teixeira Gomes. Trata-se de uma obra colectiva, coordenada pela professora Maria da Graça A. Mateus Ventura e que contou com a colaboração de mais seis autores também professores: Paulo Girão, Mário Machado Fraião, Jorge Afonso, Djamil Aissani, Ana Oliveira e José Pacheco.

Na sessão de apresentação participarm alunos da ESMTG, não só vendendo os livros em nome da editora, como também recitando textos de Teixeira Gomes.

É uma edição muito cuidada, encadernação francesa, profusamente ilustrada, com 333 páginas incluindo um índice remissivo.

Edição Tinta da China / ICIA. Encontra-se à venda em todo o país (em Portimão, na Livraria Bertrand).

De bicicleta na República

As bicicletas descobertas pelo Clube de História e Património Cultural  da ESMTG, em Dezembro de 2009, foram recuperadas pelos alunos do curso profissional de Mecânica.

Constituem já um património singular da nossa escola e deliciam os transeuntes quando saem à rua exibindo as suas rodas vetustas.

No dia 27 de Maio de 2010, dia da festa do nosso patrono, fizeram a sua estreia na Praça 1º de Maio, rodeadas por numerosos teixeirinhas.

Daí para cá têm sido bastante solicitadas e já festejaram o centenário da República numa oficina do TEMPO.

Sabiam que no mais recente salão do automóvel de Paris, no pavilhão dos veículos históricas foi exibida uma bicicleta Peugeot exactamente igual à nossa mais velhinha (a grande, à esquerda na imagem)? Pois, data de 1871, quarenta anos da implantação da República em Portugal. Tinha Manuel Teixeira Gomes onze anos de idade…

Uma figueira para Manuel Teixeira Gomes

Figos lampos no jardim da ESMTG

 

As comemorações do 150º aniversário de Manuel Teixeira Gomes tiveram inicio oficial na ESMTG no passado dia 19 de Março.

Os alunos de Antropologia (12ºC) assinalaram esse dia plantando uma figueira de figos lampos para o nosso patrono.

Junto à figueira colocámos uma placa com um excerto de uma carta de Manuel Teixeira onde manifestava o seu apreço por esta fruta típica da sua terra natal:

Uma coisa faço eu agora, impunemente, que há quase meio século me era vedada: comer fruta verde. E como ela é variada, abundante e saborosa, aqui em Florença! Estes últimos dias, tenho-me refastelado a cada almoço, numa pirâmide colossal de figos lampos, enfeitada de cerejas e albricoques, de que eu havia perdido completamente o gosto, já resignado a limitar a apreciação dessas frutas aos quadros de ”natureza morta”.

Manuel Teixeira Gomes Cartas a Columbano. 1932

A República na cidade

A história da minha rua 

 

 Praça Manuel Teixeira Gomes

 

Quem não conhece a Praça Manuel Teixeira Gomes? Ponto de encontro ou local de convívio, ainda hoje, a praça apresenta um grande dinamismo social, sobretudo nas quentes noites de verão, onde as pessoas se juntam para dar um passeio à beira-rio, para tomar um café ou até saborear um gelado.

       

 A Praça Manuel Teixeira Gomes situa-se entre a Casa Inglesa e o jardim Visconde Bivar. Nem sempre foi este o seu nome. Durante a Monarquia tinha o mesmo nome do jardim, Praça Visconde Bivar. Então, qual a razão por que mudou de nome? Em 1950, quando chegaram a Portugal os restos mortais do ex-Presidente da I República, Manuel Teixeira Gomes, que, desencantado com o rumo político do país se forçara a um exílio voluntário na Argélia, a Câmara Municipal decidiu atribuir, em sua honra, o seu nome à praça. Foi Manuel Teixeira Gomes que, em 11 de Dezembro de 1924, enquanto Presidente da República eleva Portimão a cidade.

Já no início do século XX, a praça era um pólo de vida cultural e social da cidade. Este espaço tinha vários pontos de atracção, nomeadamente os cafés/restaurants, como a Casa Inglesa e a Casa Havaneza, instalados desde 1922 no prédio da Viscondessa de Alvor. Aqui se encontrava a elite local e se jogava bilhar, laranjinha, dominó e cartas.

O coreto era outro pólo de atracção, inaugurado em 1925, ocupava o centro da praça, e nele actuavam bandas filarmónicas que animavam a população e finalizavam cerimónias oficiais. No lugar do coreto, entretanto demolido, surgiu um monumento em honra de Manuel Teixeira Gomes, no entanto, a Junta de Freguesia está hoje a proceder à sua reconstrução na zona ribeirinha.

          

 Também o cinema e o teatro eram actividades culturais ao gosto da população e decorriam inicialmente num barracão na proximidade da praça, no aterro do cais. Aqui assiste-se inicialmente ao cinema mudo mas também às mais modernas fitas cinematográficas.

De Lisboa vinham grandes peças e grandes artistas do teatro. Para além destas, outras actividades eram promovidas, como por exemplo os combates de boxe e as audições de grafonola. Por falta de condições de higiene o barracão foi demolido, tendo-se encontrado ao longo do tempo outras soluções, uma delas o cine-esplanada, construído em 1936.

Autoras:

Catarina Maio e Daniela Maio 11ºE

Sabe o que são fumeiros?

Produção de figos secos

A produção de figo e a sua preparação para exportação era uma actividade muito importante no litoral do Barlavento algarvio até meados do séc. XX. Hoje as figueiras estão ao abandono e o figo deixou de ser comida de pobres devido à sua raridade e preço elevado.

Os figos secos alimentavam uma próspera actividade exportadora. A apanha e a preparação do figo ocupavam a população rural e urbana durante o verão. Os fumeiros eram armazéns onde se procedia ao tratamento do figo, amêndoa e alfarroba para a posterior exportação. Os empresários compravam matéria-prima aos produtores da região e a mão-de-obra ficava por conta das mulheres.

A parceria de exportação de figos do Algarve foi criada em 1891 por um grupo de ricos comerciantes da região, entre os quais José Libânio Gomes, pai de Mnauel Teixeira Gomes. A sua família tinha uma importante ligação com o estrangeiro a nível comercial, exportando produtos para a Holanda, Bélgica  e França. Manuel Teixeira gomes viria também a realizar viagens pela Europa neste âmbito. 

 Quando Manuel Teixeira Gomes é nomeado ministro plenipotenciário em Londres, em 1910, dá instruções ao irmão José Teixeira Gomes, sobre os cuidados a ter com a preparação do figo.

 Excerto das instruções: 

“É indubitável que o ponto principal d’este negócio consiste na boa qualidade e preparação do figo e muitas vezes tendo occasião de ver nos armazéns da concorrência como as mulheres o preparavam, verifiquei sempre que o faziam mal e de forma bem differente da usada no seu armazém. Os figos devem ser bem espalmados e postos nas ceiras de modo que nunca fiquem soltos, assentando um em cima dos outros da forma seguinte:

Convém aproveitar as mulheres que costumam trabalhar todos os annos nos meus armazéns, mas devem ser fiscalisadas como se nunca lá houvessem trabalhado.

Este ano devem preparar-se para terem 40 mulheres, pois sempre faltam muitas, e tendo 40 podem contar com 32 a 35 certas, todos os dias.

No que diz respeito a mulheres e mais trabalho de armazém poderá informá-los o Nobre, o qual, embora já esteja velho (e tramouco) será bem aproveitar para ter conta nas mulheres, mas arranjando logo outra pessôa que se vai industriando, para o substituir.

Um rapasito, Callisto Alvo, que há dois anos tem trabalhado no meu armazém está muito bem treinado na marcação dos ceirões; também o devem aproveitar.

Nunca devem pôr a marca a fogo no capacho ou tampa das ceiras, mas sim no corpo das ceiras e a marca a fôgo nos ceirões deve pôr-se no fundo, de modo a que se veja bem quando elles estão empilhados.  

(…)

Instruções ao irmão sobre os negócios em Antuérpia

O agente em Anvers é o Sr. R. Donas, que mora na Rue Rembrandt nº23. É pessoa que me merece inteira confiança e com quem sempre poderemos contar, mas não esquecemos nunca, para descontar no exagero de certas observações ou reclamações que elle por ventura faça, que um agente tem sempre tendencia para favorecer o interesse dos compradores, de quem depende mais directamente do que dos vendedores. O agente tem 1% sobre a importancia de todas as operações feitas na Bélgica e mais as despesas de telegrammas e correio e todos os negócios teem de ser feitos com a sua intervenção. Há por ano uma exepção a esta ultima parte, que é no que se refere à casa:

Arthur van Lidth

4, Longue rue de la Lunette

Anvers

Com a qual, depois de um pleito que o Sr. Donas lhe moveu, me entende directamente dando no entanto communicação de tudo ao Sr. Donas. Este Sr. A. Van Lidth é homem difficil de tratar e é bom que deste já fiquem avisados de que se deve evitar toda e qualquer confusão entre o seu nome e nome de Getave van Lidth (que é também nosso freguez) com quem elle está a ferro e fogo, embora seja seu irmão. Fica pois entendido que o único freguez com quem temos correspondência directa é o Sr. Arthur van Lidth mas d’essa correspondencia teremos sempre de dar communicação ao Sr. Donas, para que este esteja ocorrente de tudo e nos possa defender em Anvers quando por ventura surja alguma difficuldade com o Sr. Arthur van Lidth.

[…]

Em tudo quanto se escrever ao Sr. Arthur van Lidth é indespensavel usar de máxima prodencia, nunca fazendo affirmações cathegoricas sem ter a obsoluta certeza de as poder cumprir, porque elle agarra-se à mínima indicação para fazer exigências exageradas, quando lhe convém. Mas este Snr. merece-nos muita attenção porque é o mais importante (ou um dos mais importantes) dos nossos freguezes.

(…)”

 

Carta de Manuel Teixeira Gomes dando instruções ao seu irmão, José Teixeira Gomes sobre como este deve gerir o negócio da família -exportação de fruta algarvia (s.l c. 1911),

Museu da Presidência da República

 

   Autoras:

  Luana Marques e  Sofia Realista, 12º C

A República na cidade

Portimão, de vila a cidade

Vila por mais de quatro séculos, Portimão tornou-se cidade no final da 1ª República, durante o mandato presidencial de Manuel Teixeira Gomes. Foi exactamente em 11 de Dezembro de 1924 que foi promulgado o decreto de elevação a cidade. Foi também a 11 de Dezembro, do ano seguinte, que foi lido e aceite no Congresso da República o pedido de renúncia de Manuel Teixeira Gomes.

A vocação marítima de Portimão foi consolidada com o desenvolvimento da pesca, do comércio, da indústria de conservas de peixe e com o turismo. A complementaridade com a serra de Monchique foi, desde cedo, estimulada por privilégios dos monarcas quinhentistas respeitantes ao abate de castanheiros para a construção naval. Mais tarde, já no século XX, a população rural serrana desce para a vila marítima e alimenta com a sua força de trabalho a produção fabril e o boom turístico dos anos 60. O despovoamento da serra avoluma a população urbana.

O rio e o mar são, ainda hoje, os factores vitais para a afirmação de Portimão no contexto regional e internacional. Se no séc. XVI partiam marinheiros e mestres de navios para as Américas e para a Andaluzia, barcos carregados de peixe salgado e de frutos secos foram partindo para o Norte da Europa e para os portos do Mediterrâneo, estabelecendo nessas rotas a fisionomia deste porto seguro. Nos finais da monarquia o movimento intensificou-se com o estabelecimento de catalães e andaluzes dinamizadores da indústria conserveira e do comércio. A feição cosmopolita modernizou-se e moldou-se na relação com a Europa.

José Libânio Gomes

Manuel Teixeira Gomes, presidente da República

A família de Manuel Teixeira Gomes ilustra esse cosmopolitismo – seu avô combateu em França, seu pai foi cônsule da Bélgica, ele próprio viajou incessantemente em negócios para Norte – rentabilizando os laços tecidos pelo pai em França, na Holanda e na Bélgica – e, ociosamente, pelo Sul.

Durante a República, Vila Nova crescera e as infra-estruturas urbanas foram-se modernizando. O cais foi remodelado, construiu-se um mercado de peixe e um jardim, o sapal foi aterrado.   Além da canalização de água potável e da instalação de um gerador que permitia a iluminação pública de algumas zonas da vila (Central Eléctrica Valverde, 1918), construiram-se edificios públicos como o matadouro municipal (1913, onde hoje está instalado um polo da UALG), o mercado de frutas e hortaliças (1914, demolido recentemente) e a estação ferroviária (1915). No largo Visconde de Bivar (Praça Manuel Teixeira Gomes desde 1951), no palacete da Viscondessa de Alvor, instalaram-se duas casas comerciais emblemáticas  – Casa Havaneza e Casa Inglesa (1922) – e, em 1925, colocou-se no centro deste largo um  coreto onde se realizavam animados concertos pelas bandas locais.  

A Praia da Rocha logo nos primeiros anos do século XX era procurada como espaço de lazer pelas elites locais. Os touristes franceses, espanhóis e ingleses foram chegando e os melhoramentos urgiam. Em 1910 construi-se o Casino na Praia da Rocha onde se realizavam bailes, concertos, jogos, chás dançantes e, em 1915, aí teve lugar o I Congresso Regional Algarvio. Em 1927, segundo Raul Proença, a frequência anual média da Praia da Rocha era de 700 banhistas que se distribuiam por mais de 100 casas de aluguer e pelo Hotel Viola. Contudo, só na década de 30 os melhoramentos foram notórios com a modernização das vias públicas e da iluminação e com a construção de mais unidades hoteleiras.

A vida cultural da jovem cidade, durante a I República, era intensa. Sociedades recreativas, bandas filarmónicas, animatógrafo, casino, imprensa periódica. Desse tempo ainda subsistem alguns edificios e nomes de ruas das quais iremos dando conta neste blogue.