Manuel Teixeira Gomes e as sufragistas

Manuel Teixeira Gomes era embaixador em Londres quando as  Suffragettes  radicalizaram a sua luta. Em 1903 Emmeline Pankhurst fundou a Women’s Social and Political Union (WSPU) cujo lema era “Deeds not words”. Em 1913 ele estava em Londres quando Emily Davison se lançou para a pista de Epsom para entregar ao rei Jorge V um lenço com a frase “Vote for women”.

Suffragettes.1913

Defensor do direito ao voto para as mulheres, não só conviveu com a mais famosa sufragista britânica, como publicamente defendeu a sua causa, como prova o seu testemunho na obra Carnaval Literário, escrita em Bougie, em 1935:

Quando tomei conta da Legação de Londres, há 24 anos, as sufragistas estavam em plena actividade e cometiam diariamente atentados de toda a sorte. O membro do governo que elas mais odiavam era Sir E. Grey, ministro dos Negócios Estrangeiros e viúvo de uma sufragista militante, à hora da morte da qual _ afirmava-se _ ele prometera trabalhar sem descanso pela “santa causa”. E como o Ministério continuasse negando-lhes o direito de voto, as sufragistas haviam intimidado Sir Ed. Grey a que se demitisse sob pena de o matarem. A ameaça, tomada a sério, provocou por parte da polícia severas medidas de precaução, das quais as mais visíveis (e grotescas) foram as paliçadas de grosseiros pranchões erguidas, nas extremidades da pequena rua quedava entrada para o “Foreign Office”. Só era permitida a passagem por duas portinholas abertas nas estacadas, e a que, dia e noite, dois polícias colossais (como duas torres) faziam sentinela.

Por acaso, em uma das minhas anteriores visitas a Londres, eu travara relações com uma sufragista de alto coturno, à qual manifestara toda a minha simpatia pela “causa”, e, por acaso também, foi ela uma das primeiras pessoas que encontrei quando entrei em funções. Reafirmei-lhe os meus sentimentos, e isso (à parte algum exagero) com sinceridade e convicção: a mulher inglesa, geralmente muito mais culta do que o homem, tinha boas razões para exigir o direito de voto.

Admirável foi o efeito que produziram as minhas declarações, comunicadas sem demora aos corpos dirigentes: veio logo uma delegação perguntar-me se a República portuguesa não estaria disposta a praticar a almejada reforma, e em cada sufragista surgiu uma defensora da nossa revolução, que bem precisava desses favores, pois a atmosfera de que fruía em Londres era péssima.  

Na verdade, a República Portuguesa não estava disposta a fazer tal reforma. Seria preciso esperar pela revolução dos cravos para que as mulheres portuguesas obtivessem plenamente o direito de cidadania.

Cronologia do movimento feminista em Portugal

liga-portuguesa-republicana

Liga Republicana das Mulheres Portuguesas

1897 – Federação Socialista do Sexo Feminino

1907 – Grupo Português de Estudos Feministas. Dirigido por Ana de Castro Ósório

1908 – Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Dirigido por Maria Veleda, Adelaide Cabete e Ana de Castro Osório.

1911 – Associação de Propaganda Feminista, criada na sequência de divergências surgidas na Liga Republicana. Dirigida, entre outras, por Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo.

1911 – Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher portuguesa a votar, usando a ambiguidade do artigo da constituição que atribuía o direito de voto aos cidadãos que soubessem ler e escrever e que fossem chefes de família.

1913 – Adenda à Constituição excluindo as mulheres do direito de voto

1914 – Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, fundado por Adelaide Cabete.

1924 – Realização do Congresso Feminista da Educação, durante 5 dias, com participação de feministas estrangeiras.

1931 – Direito de voto às mulheres com estudos superiores ou curso secundário completo.

1974 – Direito de voto a toda as mulheres.

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