De bicicleta na República

As bicicletas descobertas pelo Clube de História e Património Cultural  da ESMTG, em Dezembro de 2009, foram recuperadas pelos alunos do curso profissional de Mecânica.

Constituem já um património singular da nossa escola e deliciam os transeuntes quando saem à rua exibindo as suas rodas vetustas.

No dia 27 de Maio de 2010, dia da festa do nosso patrono, fizeram a sua estreia na Praça 1º de Maio, rodeadas por numerosos teixeirinhas.

Daí para cá têm sido bastante solicitadas e já festejaram o centenário da República numa oficina do TEMPO.

Sabiam que no mais recente salão do automóvel de Paris, no pavilhão dos veículos históricas foi exibida uma bicicleta Peugeot exactamente igual à nossa mais velhinha (a grande, à esquerda na imagem)? Pois, data de 1871, quarenta anos da implantação da República em Portugal. Tinha Manuel Teixeira Gomes onze anos de idade…

Uma descoberta inesperada e fascinante

         

Conhecem a sensação de quando nós, comuns mortais, chegamos no “fuso do destino” a uma situação que se mostrava incerta e enevoada? Pois foi pois justamente isso que me aconteceu no passado domingo.

Minha mãe pediu-me para ir com ela levantar o cabaz de Natal ao Parque de Feiras e Exposições e eu fui tranquilo. Levantado e arrumado o cabaz no carro, ficámos à espera de uma amiga de minha mãe com encontro marcado e que aparentemente se atrasara. Naquele frio dia de domingo decorria a feira das velharias no aclamado parque e minha mãe já gelava enquanto esperávamos pela sua amiga. Nesta pausa surgem dois rapazes a transportar uma bicicleta clássica e monumental; recordo com súbita clarividência a professora a aclamar a raridade de tais bicicletas e a importância e a necessidade de termos uma no final do ano para que todo o nosso projecto comum se realizasse no seu total esplendor. Disse de súbito: _ Mãe, olha! uma bicicleta como nós precisamos!-, e interpelei de imediato os tais rapazes. Dois moços de etnia cigana que calmamente partiam para a feira de velharias para a vender a algum sujeito; claro que na minha cabeça esse sujeito só podia ser eu, nem admitia outra resolução! Troquei breves palavras com os moços, as palavras que normalmente se enunciam neste tipo de preparos, Quanto custa?, 50 euros disse o rapaz mais velho, hum, 50 euros é muito caro, disse eu, dou-te 25 por ela. De imediato o preço baixou para 30, a velha regateirice que se adopta nestas situações entrou em funcionamento. Mesmo assim não trazia essa quantia comigo e amaldiçoei o facto de não ter o número da professora Graça Ventura, para saber o passo seguinte, pois sou modesto e iniciado neste tipo de negócios. Então fiz o que qualquer jovem faria, fui falar com a minha mãe e fiz que ela passasse por professora Graça aos olhos dos rapazes. Ela disse-me para pedir-lhes o contacto telefónico e depois logo se falava com o real professora Graça. Eu concordei e tratei do assunto.

 Neste fogo de ansiedade passei sem saber se tinham vendido a rara bicicleta, ou o que a professora tinha feito, visto que em mais de 24 horas não me apareceu uma resposta.

 Pelas 11 horas da noite de segunda-feira vem a bendita resposta. Falara com os rapazes e iria encontrar-se com eles no dia seguinte (terça-feira, portanto) e convidava-me para a acompanhar. Acedi rapidamente ao pedido e a resposta foi breve, a que horas e onde?, e deste modo se combinou o que seria a nossa aventura antropológica rentável do ponto de vista histórico, antropológico e social, visto que poderíamos ter a nossa ansiada bicicleta, teríamos também acesso a uma comunidade cigana e poderíamos observar em primeira mão o seu modo de viver, e também porque resgatávamos uma rara preciosidade das mãos da ociosidade e do desmazelo. Só poderia ser algo de bom.

Acordei cedo e despachei-me para o nosso encontro matinal antes da aventura. Rapidamente nos encontrámos e partimos para a Companheira, em busca de um sítio vagamente chamado Conduril,  lugar de pessoas onde vivem, afinal, alguns trabalhadores africanos desenraizados. As barracas dos ciganos foram algo difícil de encontrar visto que o sítio onde vivem não  tinha nome, ou se o tinha era algo obsoleto e sem uso verbal há largos anos. Encontrámos um senhor pelo caminho que sabia, assim por alto, onde eles viviam, e como os ciganos nos tinham dado o nome errado do local, o senhor foi induzido em erro e conduziu-nos para o antigo estaleiro da Conduril, ou melhor, nós conduzimo-lo porque lhe demos boleia uma vez que estava a chover. Afinal não era lá que viviam os ciganos, mas um pouco mais adiante. O homem ficou surpreendido por nós termos marcado encontro com os ciganos e perguntou-nos se eles nos tinham roubado algo.  Não, tratava-se apenas de um pequeno negócio. Aí a surpresa do homem ainda foi maior. Sem  mais explicações lá nos metemos de novo no carro

Continuámos pela estrada fora e encontrámos o local onde os ciganos viviam. Já todos esperavam a nossa chegada, visto que estavam todos reunidos na rua, apesar de chover e a bicicleta estava no meio da família, como se de uma despedida se tratasse. Conversámos um pouco, a professora conseguiu admirar a bicicleta, mas não a achou tão deslumbrante como eu, na sua opinião não era tão clássica como se queria. Ao comunicar isto aos presentes e com um meio sorriso no rosto, a família cigana respondeu com um sorriso cheio, Mas temos ali outra bicicleta ainda mais antiga do que essa, e nós os dois arregalámos os olhos, Outra? pode trazê-la? E lá veio a bicicleta e esta sim era realmente clássica, do tempo do nosso conterrâneo Manuel Teixeira Gomes.

Recomeçou a chover com menos brandura e convidaram-nos para dentro da sua barraca e aí verificámos que o que se diz por aí sobre os ciganos não é para levar  tão a sério como o dizem. Uma barraca sim, no meio do campo sim, sem água canalizada sim, mas completamente limpa e ordenada, uma imensidão de tachos todos a brilhar, o chão todo limpo, tudo arrumado e bem organizado. Claro que na altura não podia mostrar a minha admiração e espanto por tal situação, portanto aproveito para o deixar aqui. Nós, jovens da cidades, somos levados a ser preconceituosos relativamente aos ciganos por isso nunca pensei que a realidade fosse esta. Nas aulas de antropologia aprendemos  a não ser etnocêntricos e eu tomei isso tão à letra que quando comuniquei à professora a descoberta da bicicleta referi-me a «rapazes» e não a ciganos o que suscitou um diálogo divertido entre ela e a mãe deles, por telefone. Desde cedo os adultos impõem o preconceito cultural em relação aos ciganos considerando-os maus, mentirosos e ladrões. Se um filho diz à sua mãe que é amigo de um cigano é logo motivo de castigo e repreensões; porém ali não vi maldade, nem roubo, apenas uma família que queria fazer uma pequena transacção com umas pessoas.

Ali naquele conjunto de barracas vivia uma família polida, a senhora Maria, com um dente de ouro, era muito gentil. Um dos seus filhos estava numa cadeira de rodas devido a uma doença que teve aos doze anos, mas todos pareciam viver harmoniosamente.  Os rapazes que eram donos da bicicleta não se queriam libertar das bicicletas do avô, mas parece que a mãe os convenceu a vendê-las pois já de nada servia para eles e com o dineheiro poderiam comprar uma nova.

A professora Graça fez um telefonema para o Director da escola e perguntou se aceitava as duas bicicletas pelo valor de 90 euros pois ambas nos iriam servir no nosso projecto. O director acedeu e preparámos a viagem para a escola, sendo que os ciganos levavam na sua carrinha as duas preciosidades e na escola se trataria do pagamento aos senhores.

E assim se fez a curta viagem para a escola onde todos admiraram as bicicletas como ícones do tempo antigo e um resgate bem executado com modéstia e a arte oratória da professora Graça, e também com o dinheiro da escola que entrou em jogo para este resgate.

O professor Telmo, director da escola, estava um pouco inseguro em relação ao valor das bicicletas, mas as premissas da professora Graça eram inabaláveis e a conclusão foi a inevitável cedência do professor Telmo. Fez-se o pagamento e os senhores abalaram.

Arrumámos as bicicletas nas oficinas da escola na expectativa de as mesmas serem recuperadas pelos professores de Mecânica a tempo de surpreendermos a cidade e a comunidade escolar no programa de comemorações do nascimento do nosso patrono e dos 100 anos da República.

E assim nestes moldes se desenhou a nossa aventura pelos subúrbios da cidade, onde ainda nos esperam, talvez, algumas caixas de surpresas como esta que acabo de relatar.

Ruben dos Santos, 12º C