A feira de S. Martinho nos finais do século XIX

Portimão portoEm 1939, Manuel Teixeira Gomes escreveu sobre as suas memórias da feira de Portimão, na sua obra Carnaval Literário. Esta descrição refere-se à feira de S. Martinho, nos finais do século XIX, “há mais de meio século”, dizia ele. Para nós, há mais de cem anos. Mudou o local de realização, bem como o ambiente, os produtos, as diversões. Mas quem não guarda memórias divertidas das feiras? Nos anos 60 e 70 ainda a feira de S. Martinho era o grande acontecimento anual em Portimão. Não havia hipermercados nem centros comerciais, nem internet, nem telemóveis, nem pcs ou tablets. Os jovens ansiavam pelo circo, pelos carrocéis, pelas “feiras” que os pais, avós, tios e padrinhos se sentiam obrigados a dar. Ao fim e ao cabo, a feira nestes anos não era muito diferente daquela que Manuel Teixeira Gomes nos descreveu. Ele conta-nos como era, assim:

mercado de vassouras “Como parecia aumentar a extensão do cais logo que a feira lá assentava! Tornava-se uma vastidão sem fim. Começava pela barulhenta rua dos sapateiros (cheia de penduricalhos, tresandando a curtidura) que eu mal percebia que coubesse ali; depois a rua igualmente longa dos paneiros, porém, mais repousada, quase silenciosa, embora fosse raro o momento em que eles não trabalhassem, medindo às varas os sorianos apetecidos pelos lapuzes friorentos; depois a rua dos tendeiros, exposição das maravilhas que as crianças ambicionam para os seus paraísos domésticos: pélas multicores; tirsos cobertos de guizos; arlequins abrindo os braços do alto das tribunas que lhes proporcionam os gargalos de garrafas; animais de toda a casta, e as gaitinhas de toda a espécie e feitios, com os berimbaus, os tambores, as trompas; e para remate, as harmónicas inacessíveis, regalos… de príncipes reais. Quase isolada, mais larga e decorativa, embora mais curta, a rua com as barracas de arreios: a alegria andaluza dos cabrestões recamados de rosas, as retrancas franjadas, as rédeas de polimenta.

No coração da feira os aristocráticos ourives, com a densa e variada multidão da freguesia que lhes perscruta os escaparates: damas elegantes e desdenhosas; casais de namorados devaneando sobre a posse daqueles tesouros; campónias poupadas que forraram o dinheiro para comprar um par de brincos, ou um cordão, e andam com a família toda (e o noivo) horas sucessivas a examinar, a ajustar…

Mercado-Cântaros1Por fim, formando bairro à parte, as barracas de «comes e bebes» com toques de guitarra e figurões congestionados que deitam a cabeça de fora para vomitar vinho tinto…

Depois, ao ar livre (como chega o espaço para tanta coisa!) a obra de castanho, feita em Monchique: mesas, cadeiras e arcas; os montes de frutas, os peros rescendentes, o cascalho de nozes, as pirâmides de romãs; e as louças de barro, de faiança, estendidas sobre o junco, luzindo ao sol a peculiar garridice dos seus esmaltes vidrados.

Formando também bairro distinto as barracas de bazares ou leilões, dos títeres, e aquela infalível – temerosa – das feras, que se por acaso se soltassem (pobres feras!) devoravam tudo, com constante e enorme concorrência de labregos pasmados e de embarcadiços de mãos dadas e andar balouçado.

E as surpresas e transes da corredoira, para quem se propõe escolher um burro sólido e veloz, que mate de inveja os companheiros de escola?

Mas excedendo tudo a feira de gado, com essa raça de bois vermelhos que no Algarve apuram até à perfeição extrema, e não tem rival no mundo. A última visão que dela me ficou, quando a deixei, dá-me ainda hoje um marujo da armada puxando por um bezerro renitente, enleado no seu uniforme, não porque lhe tolhesse os movimentos mas _ dizia-me ele depois _ por sentir a extravagância de aparecer ali assim vestido, levando pelo baraço um bezerro assustadiço, e ainda em cima o guarda-sol azul e colossal aberto, para abrigar a numerosa família que o acompanhava. Era um tremendo garotão filho de uma comadre dos Montes de Alvor, viúva, que tinha uma horta e moirejava como um homem. O bezerro, da sua criação, foi a peça mais linda que se apresentou na feira: rendeu nove moedas.

E por todos os lados, o povo, a agitação, o bulício, a poeira, o barulho, são tais que as mães estonteadas, cegas, esquecem os filhos que se perdem e desaparecem roubados pelos ciganos, diz a lenda que cito para pôr ponto à relação de tantos assombros… pueris.

«Dar as feiras» constitui no Algarve uma espécie de obrigação, a que ninguém que se preze pode fugir: é mais restrita do que a própria consoada das Endoenças. As crianças andam constantemente à busca dos padrinhos e dos parentes e amigos dos pais para lhes pedirem as feiras, não faltando todavia quem as recuse, sobretudo aos filhos dos ricos que não sabem fazer seleção de avaros e pródigos. Não sucede o mesmo com os pobres, que nunca se enganam…”

Manuel Teixeira Gomes, Carnaval Literário, 1939

Concurso escolar A história da minha rua – Regulamento

 

REGULAMENTO

Âmbito do concurso

O concurso escolar “A História da Minha Rua” pretende premiar os melhores trabalhos desenvolvidos pelos alunos da escola, bem como promover o interesse dos jovens pela história local. 

Este concurso decorrerá na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes entre o dia 14 de Fevereiro e 27 de Abril de 2011, conforme programa a divulgar posteriormente. 

Destinatários

O concurso é dirigido a todos os alunos da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes.

Todos os alunos da escola poderão participar com um trabalho individual e inédito.

Tema do trabalho

Os trabalhos devem ter como tema “A História da Minha Rua”, sendo que os autores dos trabalhos devem centrar-se numa pesquisa sobre uma rua da sua preferência/vivência, dando realce ao nome que foi atribuído à rua e salientando o motivo pelo qual ele foi escolhido (ex: personalidades, localidades, etc.).

Além da pesquisa sobre o nome da rua, o trabalho deverá revelar criatividade e originalidade.

Formato

Os trabalhos deverão ser realizados em suporte de papel.

O trabalho deve ser editado com letra Arial, tamanho 12, sendo que o espaçamento deve ser 1,5. O limite máximo é de 5 páginas A4.

O trabalho deve conter ilustrações e deve ser assinado com um pseudónimo (não podendo existir qualquer menção ao nome do seu autor).

Fases do concurso

1ª fase

Os autores dos trabalhos deverão proceder à sua entrega entre o dia 14 de Fevereiro de 2011 e o dia 27 de Abril de 2011.

2ª fase

A admissão dos trabalhos a concurso e a sua avaliação são da responsabilidade do  júri e basear-se-ão nos critérios enumerados no ponto “Critérios de Avaliação”.

Entrega dos trabalhos

A entrega dos trabalhos deverá ser feita através de um envelope, no qual deverá constar o título do trabalho e o pseudónimo do autor, dentro do qual será colocado outro envelope com o verdadeiro nome do autor.

Os trabalhos deverão ser entregues na biblioteca da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes.

Os envelopes estarão disponíveis na BE/CRE a partir do dia 9 de Fevereiro de 2011.

Critérios de avaliação

Só serão admitidos a concurso os trabalhos, que respeitem as condições defenidas no presente regulamento.

A apreciação dos trabalhos terá em conta os seguintes critérios:

1.       Rigor científico;

2.       Criatividade/ originalidade;

3.       Qualidade da apresentação.

Júri

O júri será constituído por:

– Docentes do grupo disciplinar de História;

– Uma personalidade da cidade de Portimão.

Prémios

Serão atribuídos prémios aos três melhores trabalhos, bem como menções honrosas aos restantes, caso o júri os considere merecedores desta distinção.

O júri poderá não atribuir prémios caso os trabalhos não apresentem a qualidade pretendida.

A decisão do júri será soberana e definitiva, não havendo lugar a qualquer recurso.

1º Prémio – livros no valor de 50€

2º Prémio – livros no valor de 30€

3º Prémio –livros no valor de 20€

Cerimónia de entrega dos prémios

Os prémios serão entregues em cerimónia a realizar no dia 27 de Maio de 2011 (Dia de Manuel Teixeira Gomes).

Propriedade dos trabalhos

Os trabalhos admitidos a concurso poderão ser utilizados no âmbito das actividades levadas a cabo pela organização, nomeadamente, através da sua publicação nos blogues (www.noseahistoria.wordpress.com   e www.ahistorianacidade.wordpress.com) ou na imprensa regional.

Os trabalhos premiados integrarão o acervo documental do grupo disciplinar de História, com vista ao seu uso com fins didáticos.

Contactos para esclarecimentos

Gabinete de Ciências Sociais e Humanas (Bloco A)

Docentes do Grupo Disciplinar de História.

Blogues: www.noseahistoria.wordpress.com

www.ahistorianacidade.wordpress.com

Organização

Este concurso é organizado pelos docentes pertencentes ao grupo disciplinar de História.

Boas Festas

Quem disse que a tradição é inimiga da modernidade?

Presépio tradicional do Algarve

No Algarve  e na Madeira o nascimento de Jesus é representado, tradicionalmente,  de uma forma muito singela.

Um menino vestido num altar piramidal, laranjinhas e searinhas.

Esta tradição coexiste com um presépio integrado numa paisagem rural ou, nos Açores,  com representações miniaturais de cenas da vida rural ou aldeã.

 

 

Presépio de altar tradicional da Madeira Presépio tradicional dos Açores

Presépio tradicional dos Açores

A representação do presépio centra-se na Sagrada Família, mas inclui um número variado de outras figuras associadas à tradição bíblica – pastores, animais domésticos, reis magos. Claro que os anjos e as estrelas, fazendo parte do universo celestial, entram, por vezes, neste cenário.

E nós, que vivemos num mundo urbano, já não temos espaço para armar um presépio com musgo, cortiça, lagos de prata com cisnes, caminhos de areia, azevinho com bagas vermelhas, searinhas. Menino Jesus de pé (já crescidinho) com um vestido de brocado ou de linho bordado, num cimo de um altar, seria muito mais fácil de armar. A verdade é que, levados pelo consumismo, preterimos a tradição a favor de uma modernidade ostentatória e fingimos que somos reis magos ricos por um dia.

Agora imaginem que S. José tinha um portátil com internet…  

http://www.youtube.com/watch?v=tgtnNc1Zplc

BOAS FESTAS!

A República na cidade

     

 A história da minha rua

 

Rua Santa Isabel, antiga Rua Cândido dos Reis

 

Em Portimão existem muitas ruas com nomes de republicanos, a maioria viu os seus nomes mudados pelo Estado Novo, como a rua Cândido dos Reis.           

 Cândido dos Reis foi um defensor dos novos ideais republicanos, que nos chegavam a partir da Revolução Francesa e do Liberalismo. O Almirante Cândido dos Reis esteve na origem da revolução de 5 de Outubro de 1910. Foi um dos cabecilhas da operação, o que se revelou essencial, pois ter um militar de tal experiência na organização das manobras revolucionárias é fulcral.

Cândido dos Reis foi uma pessoa desde cedo relacionada com as Forças armadas Portuguesas. Participou na Marinha e chegou ao cargo de Almirante. Desde cedo o seu carácter se revelou de um verdadeiro líder, confiante, dedicado, responsável e, por isso, rapidamente se destacou de entre as tropas e alcançou posição de destaque entre os oficiais, o que era de admirar tendo em conta os seus ideais republicanos, num regime monárquico.

 Na noite de 4 de Outubro tendo já tudo preparado e iniciado as operações, Cândido dos Reis suicidou-se julgando que a operação tinha falhado. Não foi o único republicano a suicidar-se nessa noite, por motivos semelhantes. Após a sua morte, e com o triunfo dos republicanos, Cândido dos Reis torna-se um mártir republicano e dá nome a muitas ruas e avenidas por todo o país, num esforço das autarquias de republicanizar as massas.

Uma dessas ruas e avenidas com o nome deste mártir foi a antiga rua dos Arcos, em plena Vila Nova de Portimão, uma das ruas mais históricas da vila, perto de um dos mais influentes pólos de atracção na vila,  o porto e as fábricas.

 Esta rua teve uma grande importância  para a população local, pois era uma das ruas onde se praticava mais comércio e do mais importante, nos anos 20. Na imprensa local da época encontramos muitos anúncios de carácter comercial. Nesta rua instalou-se uma empresa autárquica de penhora de bens onde as populações quando necessitadas de dinheiro iam trocar quaisquer objectos que tivessem em sua posse. Uma das mais importantes sapatarias da jovem cidade, a Sapataria Andrade, de Amadeu Figueira de Andrade, vendia calçado de luxo para homens, mulheres e crianças. Essa mesma sapataria ia buscar calçado directamente de Inglaterra, pois quando ainda não existia futebol profissional em Portugal, já essa sapataria vendia botas de “Foot-ball”.

 

Na Rua Cândido dos Reis encontrava-se também  um dos mais conceituados antiquários e relojoeiros da cidade, que ainda hoje mantém actividade, prova do seu sucesso e fidelidade dos clientes; no início da rua ainda hoje se encontra um quiosque junto ao Jardim Bivar.

 Esta rua também acolheu um “Prestamista”, João Rosa da Conceição, casa de empréstimos sobre penhores e ourivesaria. Neste estabelecimento, emprestava-se dinheiro a troco de ouro, prata, brilhantes, máquinas de costura, mobílias, louças, roupas e tudo o que tivesse garantia. Este estabelecimento tinha também um enorme sortido de artigos de ourivesaria que comprava pelos melhores preços do mercado e revendia.

 Todas estas informações estão registadas no jornal da época Comércio de Portimão datado de 11 e 18 de Julho de 1926.  

 Este trabalho serviu para essencialmente conhecer a minha rua, hoje chamada de Rua Santa Isabel, por alteração do Estado Novo. Esta rua revelou-se muito activa e  comercialmente importante. Revelou-se também um dos pólos mais poderosos da Vila Nova de Portimão.

 Após o 25 de Abril de 1974 outra rua, situada junto ao antigo Sapal, foi baptizada com o nome do republicano Cândido dos Reis.

 Ruben dos Santos, 12ºC, e Soraia Marçal, 11ºH

Uma figueira para Manuel Teixeira Gomes

Figos lampos no jardim da ESMTG

 

As comemorações do 150º aniversário de Manuel Teixeira Gomes tiveram inicio oficial na ESMTG no passado dia 19 de Março.

Os alunos de Antropologia (12ºC) assinalaram esse dia plantando uma figueira de figos lampos para o nosso patrono.

Junto à figueira colocámos uma placa com um excerto de uma carta de Manuel Teixeira onde manifestava o seu apreço por esta fruta típica da sua terra natal:

Uma coisa faço eu agora, impunemente, que há quase meio século me era vedada: comer fruta verde. E como ela é variada, abundante e saborosa, aqui em Florença! Estes últimos dias, tenho-me refastelado a cada almoço, numa pirâmide colossal de figos lampos, enfeitada de cerejas e albricoques, de que eu havia perdido completamente o gosto, já resignado a limitar a apreciação dessas frutas aos quadros de ”natureza morta”.

Manuel Teixeira Gomes Cartas a Columbano. 1932

A República na cidade

A história da minha rua 

 

 Praça Manuel Teixeira Gomes

 

Quem não conhece a Praça Manuel Teixeira Gomes? Ponto de encontro ou local de convívio, ainda hoje, a praça apresenta um grande dinamismo social, sobretudo nas quentes noites de verão, onde as pessoas se juntam para dar um passeio à beira-rio, para tomar um café ou até saborear um gelado.

       

 A Praça Manuel Teixeira Gomes situa-se entre a Casa Inglesa e o jardim Visconde Bivar. Nem sempre foi este o seu nome. Durante a Monarquia tinha o mesmo nome do jardim, Praça Visconde Bivar. Então, qual a razão por que mudou de nome? Em 1950, quando chegaram a Portugal os restos mortais do ex-Presidente da I República, Manuel Teixeira Gomes, que, desencantado com o rumo político do país se forçara a um exílio voluntário na Argélia, a Câmara Municipal decidiu atribuir, em sua honra, o seu nome à praça. Foi Manuel Teixeira Gomes que, em 11 de Dezembro de 1924, enquanto Presidente da República eleva Portimão a cidade.

Já no início do século XX, a praça era um pólo de vida cultural e social da cidade. Este espaço tinha vários pontos de atracção, nomeadamente os cafés/restaurants, como a Casa Inglesa e a Casa Havaneza, instalados desde 1922 no prédio da Viscondessa de Alvor. Aqui se encontrava a elite local e se jogava bilhar, laranjinha, dominó e cartas.

O coreto era outro pólo de atracção, inaugurado em 1925, ocupava o centro da praça, e nele actuavam bandas filarmónicas que animavam a população e finalizavam cerimónias oficiais. No lugar do coreto, entretanto demolido, surgiu um monumento em honra de Manuel Teixeira Gomes, no entanto, a Junta de Freguesia está hoje a proceder à sua reconstrução na zona ribeirinha.

          

 Também o cinema e o teatro eram actividades culturais ao gosto da população e decorriam inicialmente num barracão na proximidade da praça, no aterro do cais. Aqui assiste-se inicialmente ao cinema mudo mas também às mais modernas fitas cinematográficas.

De Lisboa vinham grandes peças e grandes artistas do teatro. Para além destas, outras actividades eram promovidas, como por exemplo os combates de boxe e as audições de grafonola. Por falta de condições de higiene o barracão foi demolido, tendo-se encontrado ao longo do tempo outras soluções, uma delas o cine-esplanada, construído em 1936.

Autoras:

Catarina Maio e Daniela Maio 11ºE

A República na cidade

 

A História da Minha Rua

 

 Praça da República

 

O antigo Rossio de Portimão ou Largo do Pelourinho, assim chamado durante o Antigo Regime, situava-se extra-muros, junto ao postigo da Igreja. Foi aqui que, desde 1662, se realizava a feira franca, até que passou para o cais da vila em finais do século XIX.

O largo do Rossio passou a denominar-se Praça da República logo a seguir à Revolução de 5 de Outubro. Era o principal espaço de lazer e circulação pedestre de Portimão, próximo da zona mais nobre e comercial da cidade, ocupando cerca de um quarteirão rectangular. Nela se situavam os principais espaços de encontros e desencontros, entre transeuntes, tais como o antigo Colégio da Companhia de Jesus, a Igreja Matriz e o Mercado de Frutas e Hortaliças de Portimão, este último, o maior centro de convívio entre os Portimonenses durante a 1ª metade do séc. XX.

A construção do Colégio jesuíta ficou concluída em 1707. Com a extinção da Companhia de Jesus em 1753, o colégio foi entregue à Universidade de Coimbra e à Ordem de S. Camilo de Lélis. Em 1834 as ordens religiosas foram extintas e os seus bens nacionalizados e postos à venda. O Colégio dos Jesuítas, não conseguindo comprador, permaneceu durante alguns anos como Património Nacional. Porém, a 18 de Agosto de 1853, Fontes Pereira de Melo decretou no “Diário do Governo” nº 207 que parte do edifício fosse concedida à Câmara Municipal de Vila Nova de Portimão. De então para cá, o edifício teve diferentes utilizações: no primeiro piso instalaram-se a Misericórdia, um Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco, o Tribunal Judicial, a Administração do Concelho e a Repartição da Fazenda, enquanto no piso térreo funcionou um albergue, o teatro de S. Camilo, uma esquadra de Polícia e um Museu.

O antigo Colégio assumia desta forma um importante papel em Vila Nova de Portimão, uma vez que o conjunto de actividades que suportou durante o século XIX correspondia aos principais serviços e equipamentos necessários ao funcionamento desde pequeno centro urbano. O teatro de S. Camilo, propriedade da Misericórdia, permaneceu no antigo Colégio ainda durante os primeiros anos da República, exercendo as suas funções até 1914.

 Actualmente, a antiga Igreja do Colégio é a Igreja da Misericórdia, e no restante edifício funcionam as instalações da Junta de Freguesia da Cidade, um Centro de Dia e ainda uma galeria de Arte.

A Igreja Matriz de Portimão, próxima da Praça, foi edificada no terceiro quartel do século XV, na zona mais elevada da Vila. Sofreu muitos danos no Terramoto de 1755, ficando praticamente destruída, o que levou à sua reconstrução. Em 1969 foi alvo de novos estragos provocados pelo sismo que abalou Portimão nesta data.

Finalmente, o Mercado de Verduras e Hortaliças foi, de facto, o espaço verdadeiramente Republicano de Portimão, tendo sido construído poucos anos após o 5 de Outubro de 1910. A Câmara Municipal ordena a sua construção em 1913 no largo fronteiro ao Colégio de S. Camilo, uma opção que foi alvo de algumas críticas, principalmente por um cidadão que em reunião da Comissão Executiva Municipal alegou que o “edifício vai ficar altamente prejudicado com a citada construção no aludido lugar”.

No entanto, o mercado é inaugurado a 24 de Maio de 1914, passando a organizar um novo circuito comercial no interior da cidade, dado que as principais instituições comercias da mesma alargavam-se até ao mercado de peixe, situado junto do cais.

Este espaço não era somente comercial, pois assumiu durante muito tempo um carácter cultural visto que foi utilizado, em diversas ocasiões, para bailes populares e até arrojadas acrobacias entre a Torre da Igreja e a Praça. A sua proximidade à Igreja Matriz e às sociedades recreativas permitiam a sua frequente utilização, até mesmo no exterior do mercado quando os camponeses vendiam aos Domingos os seus mais variados produtos agrícolas, animais ou géneros alimentícios.

 O mercado de Frutas foi desactivado em 1988, sendo o edifício utilizado para diversos fins culturais, tendo sido demolido dois anos depois.

A Praça da República manteve este nome ainda no decorrer do Estado Novo. Só após a demolição do Mercado de Frutas é que passou a ser denominada de Alameda de República onde hoje é possível encontrar um local renovado com repuxos, cafés e um parque infantil.

Ana Rita Mateus, 12º C

Sabe o que são fumeiros?

Produção de figos secos

A produção de figo e a sua preparação para exportação era uma actividade muito importante no litoral do Barlavento algarvio até meados do séc. XX. Hoje as figueiras estão ao abandono e o figo deixou de ser comida de pobres devido à sua raridade e preço elevado.

Os figos secos alimentavam uma próspera actividade exportadora. A apanha e a preparação do figo ocupavam a população rural e urbana durante o verão. Os fumeiros eram armazéns onde se procedia ao tratamento do figo, amêndoa e alfarroba para a posterior exportação. Os empresários compravam matéria-prima aos produtores da região e a mão-de-obra ficava por conta das mulheres.

A parceria de exportação de figos do Algarve foi criada em 1891 por um grupo de ricos comerciantes da região, entre os quais José Libânio Gomes, pai de Mnauel Teixeira Gomes. A sua família tinha uma importante ligação com o estrangeiro a nível comercial, exportando produtos para a Holanda, Bélgica  e França. Manuel Teixeira gomes viria também a realizar viagens pela Europa neste âmbito. 

 Quando Manuel Teixeira Gomes é nomeado ministro plenipotenciário em Londres, em 1910, dá instruções ao irmão José Teixeira Gomes, sobre os cuidados a ter com a preparação do figo.

 Excerto das instruções: 

“É indubitável que o ponto principal d’este negócio consiste na boa qualidade e preparação do figo e muitas vezes tendo occasião de ver nos armazéns da concorrência como as mulheres o preparavam, verifiquei sempre que o faziam mal e de forma bem differente da usada no seu armazém. Os figos devem ser bem espalmados e postos nas ceiras de modo que nunca fiquem soltos, assentando um em cima dos outros da forma seguinte:

Convém aproveitar as mulheres que costumam trabalhar todos os annos nos meus armazéns, mas devem ser fiscalisadas como se nunca lá houvessem trabalhado.

Este ano devem preparar-se para terem 40 mulheres, pois sempre faltam muitas, e tendo 40 podem contar com 32 a 35 certas, todos os dias.

No que diz respeito a mulheres e mais trabalho de armazém poderá informá-los o Nobre, o qual, embora já esteja velho (e tramouco) será bem aproveitar para ter conta nas mulheres, mas arranjando logo outra pessôa que se vai industriando, para o substituir.

Um rapasito, Callisto Alvo, que há dois anos tem trabalhado no meu armazém está muito bem treinado na marcação dos ceirões; também o devem aproveitar.

Nunca devem pôr a marca a fogo no capacho ou tampa das ceiras, mas sim no corpo das ceiras e a marca a fôgo nos ceirões deve pôr-se no fundo, de modo a que se veja bem quando elles estão empilhados.  

(…)

Instruções ao irmão sobre os negócios em Antuérpia

O agente em Anvers é o Sr. R. Donas, que mora na Rue Rembrandt nº23. É pessoa que me merece inteira confiança e com quem sempre poderemos contar, mas não esquecemos nunca, para descontar no exagero de certas observações ou reclamações que elle por ventura faça, que um agente tem sempre tendencia para favorecer o interesse dos compradores, de quem depende mais directamente do que dos vendedores. O agente tem 1% sobre a importancia de todas as operações feitas na Bélgica e mais as despesas de telegrammas e correio e todos os negócios teem de ser feitos com a sua intervenção. Há por ano uma exepção a esta ultima parte, que é no que se refere à casa:

Arthur van Lidth

4, Longue rue de la Lunette

Anvers

Com a qual, depois de um pleito que o Sr. Donas lhe moveu, me entende directamente dando no entanto communicação de tudo ao Sr. Donas. Este Sr. A. Van Lidth é homem difficil de tratar e é bom que deste já fiquem avisados de que se deve evitar toda e qualquer confusão entre o seu nome e nome de Getave van Lidth (que é também nosso freguez) com quem elle está a ferro e fogo, embora seja seu irmão. Fica pois entendido que o único freguez com quem temos correspondência directa é o Sr. Arthur van Lidth mas d’essa correspondencia teremos sempre de dar communicação ao Sr. Donas, para que este esteja ocorrente de tudo e nos possa defender em Anvers quando por ventura surja alguma difficuldade com o Sr. Arthur van Lidth.

[…]

Em tudo quanto se escrever ao Sr. Arthur van Lidth é indespensavel usar de máxima prodencia, nunca fazendo affirmações cathegoricas sem ter a obsoluta certeza de as poder cumprir, porque elle agarra-se à mínima indicação para fazer exigências exageradas, quando lhe convém. Mas este Snr. merece-nos muita attenção porque é o mais importante (ou um dos mais importantes) dos nossos freguezes.

(…)”

 

Carta de Manuel Teixeira Gomes dando instruções ao seu irmão, José Teixeira Gomes sobre como este deve gerir o negócio da família -exportação de fruta algarvia (s.l c. 1911),

Museu da Presidência da República

 

   Autoras:

  Luana Marques e  Sofia Realista, 12º C

Uma descoberta inesperada e fascinante

         

Conhecem a sensação de quando nós, comuns mortais, chegamos no “fuso do destino” a uma situação que se mostrava incerta e enevoada? Pois foi pois justamente isso que me aconteceu no passado domingo.

Minha mãe pediu-me para ir com ela levantar o cabaz de Natal ao Parque de Feiras e Exposições e eu fui tranquilo. Levantado e arrumado o cabaz no carro, ficámos à espera de uma amiga de minha mãe com encontro marcado e que aparentemente se atrasara. Naquele frio dia de domingo decorria a feira das velharias no aclamado parque e minha mãe já gelava enquanto esperávamos pela sua amiga. Nesta pausa surgem dois rapazes a transportar uma bicicleta clássica e monumental; recordo com súbita clarividência a professora a aclamar a raridade de tais bicicletas e a importância e a necessidade de termos uma no final do ano para que todo o nosso projecto comum se realizasse no seu total esplendor. Disse de súbito: _ Mãe, olha! uma bicicleta como nós precisamos!-, e interpelei de imediato os tais rapazes. Dois moços de etnia cigana que calmamente partiam para a feira de velharias para a vender a algum sujeito; claro que na minha cabeça esse sujeito só podia ser eu, nem admitia outra resolução! Troquei breves palavras com os moços, as palavras que normalmente se enunciam neste tipo de preparos, Quanto custa?, 50 euros disse o rapaz mais velho, hum, 50 euros é muito caro, disse eu, dou-te 25 por ela. De imediato o preço baixou para 30, a velha regateirice que se adopta nestas situações entrou em funcionamento. Mesmo assim não trazia essa quantia comigo e amaldiçoei o facto de não ter o número da professora Graça Ventura, para saber o passo seguinte, pois sou modesto e iniciado neste tipo de negócios. Então fiz o que qualquer jovem faria, fui falar com a minha mãe e fiz que ela passasse por professora Graça aos olhos dos rapazes. Ela disse-me para pedir-lhes o contacto telefónico e depois logo se falava com o real professora Graça. Eu concordei e tratei do assunto.

 Neste fogo de ansiedade passei sem saber se tinham vendido a rara bicicleta, ou o que a professora tinha feito, visto que em mais de 24 horas não me apareceu uma resposta.

 Pelas 11 horas da noite de segunda-feira vem a bendita resposta. Falara com os rapazes e iria encontrar-se com eles no dia seguinte (terça-feira, portanto) e convidava-me para a acompanhar. Acedi rapidamente ao pedido e a resposta foi breve, a que horas e onde?, e deste modo se combinou o que seria a nossa aventura antropológica rentável do ponto de vista histórico, antropológico e social, visto que poderíamos ter a nossa ansiada bicicleta, teríamos também acesso a uma comunidade cigana e poderíamos observar em primeira mão o seu modo de viver, e também porque resgatávamos uma rara preciosidade das mãos da ociosidade e do desmazelo. Só poderia ser algo de bom.

Acordei cedo e despachei-me para o nosso encontro matinal antes da aventura. Rapidamente nos encontrámos e partimos para a Companheira, em busca de um sítio vagamente chamado Conduril,  lugar de pessoas onde vivem, afinal, alguns trabalhadores africanos desenraizados. As barracas dos ciganos foram algo difícil de encontrar visto que o sítio onde vivem não  tinha nome, ou se o tinha era algo obsoleto e sem uso verbal há largos anos. Encontrámos um senhor pelo caminho que sabia, assim por alto, onde eles viviam, e como os ciganos nos tinham dado o nome errado do local, o senhor foi induzido em erro e conduziu-nos para o antigo estaleiro da Conduril, ou melhor, nós conduzimo-lo porque lhe demos boleia uma vez que estava a chover. Afinal não era lá que viviam os ciganos, mas um pouco mais adiante. O homem ficou surpreendido por nós termos marcado encontro com os ciganos e perguntou-nos se eles nos tinham roubado algo.  Não, tratava-se apenas de um pequeno negócio. Aí a surpresa do homem ainda foi maior. Sem  mais explicações lá nos metemos de novo no carro

Continuámos pela estrada fora e encontrámos o local onde os ciganos viviam. Já todos esperavam a nossa chegada, visto que estavam todos reunidos na rua, apesar de chover e a bicicleta estava no meio da família, como se de uma despedida se tratasse. Conversámos um pouco, a professora conseguiu admirar a bicicleta, mas não a achou tão deslumbrante como eu, na sua opinião não era tão clássica como se queria. Ao comunicar isto aos presentes e com um meio sorriso no rosto, a família cigana respondeu com um sorriso cheio, Mas temos ali outra bicicleta ainda mais antiga do que essa, e nós os dois arregalámos os olhos, Outra? pode trazê-la? E lá veio a bicicleta e esta sim era realmente clássica, do tempo do nosso conterrâneo Manuel Teixeira Gomes.

Recomeçou a chover com menos brandura e convidaram-nos para dentro da sua barraca e aí verificámos que o que se diz por aí sobre os ciganos não é para levar  tão a sério como o dizem. Uma barraca sim, no meio do campo sim, sem água canalizada sim, mas completamente limpa e ordenada, uma imensidão de tachos todos a brilhar, o chão todo limpo, tudo arrumado e bem organizado. Claro que na altura não podia mostrar a minha admiração e espanto por tal situação, portanto aproveito para o deixar aqui. Nós, jovens da cidades, somos levados a ser preconceituosos relativamente aos ciganos por isso nunca pensei que a realidade fosse esta. Nas aulas de antropologia aprendemos  a não ser etnocêntricos e eu tomei isso tão à letra que quando comuniquei à professora a descoberta da bicicleta referi-me a «rapazes» e não a ciganos o que suscitou um diálogo divertido entre ela e a mãe deles, por telefone. Desde cedo os adultos impõem o preconceito cultural em relação aos ciganos considerando-os maus, mentirosos e ladrões. Se um filho diz à sua mãe que é amigo de um cigano é logo motivo de castigo e repreensões; porém ali não vi maldade, nem roubo, apenas uma família que queria fazer uma pequena transacção com umas pessoas.

Ali naquele conjunto de barracas vivia uma família polida, a senhora Maria, com um dente de ouro, era muito gentil. Um dos seus filhos estava numa cadeira de rodas devido a uma doença que teve aos doze anos, mas todos pareciam viver harmoniosamente.  Os rapazes que eram donos da bicicleta não se queriam libertar das bicicletas do avô, mas parece que a mãe os convenceu a vendê-las pois já de nada servia para eles e com o dineheiro poderiam comprar uma nova.

A professora Graça fez um telefonema para o Director da escola e perguntou se aceitava as duas bicicletas pelo valor de 90 euros pois ambas nos iriam servir no nosso projecto. O director acedeu e preparámos a viagem para a escola, sendo que os ciganos levavam na sua carrinha as duas preciosidades e na escola se trataria do pagamento aos senhores.

E assim se fez a curta viagem para a escola onde todos admiraram as bicicletas como ícones do tempo antigo e um resgate bem executado com modéstia e a arte oratória da professora Graça, e também com o dinheiro da escola que entrou em jogo para este resgate.

O professor Telmo, director da escola, estava um pouco inseguro em relação ao valor das bicicletas, mas as premissas da professora Graça eram inabaláveis e a conclusão foi a inevitável cedência do professor Telmo. Fez-se o pagamento e os senhores abalaram.

Arrumámos as bicicletas nas oficinas da escola na expectativa de as mesmas serem recuperadas pelos professores de Mecânica a tempo de surpreendermos a cidade e a comunidade escolar no programa de comemorações do nascimento do nosso patrono e dos 100 anos da República.

E assim nestes moldes se desenhou a nossa aventura pelos subúrbios da cidade, onde ainda nos esperam, talvez, algumas caixas de surpresas como esta que acabo de relatar.

Ruben dos Santos, 12º C

Visita ao Centro de Documentação

Visita de trabalho ao Centro de Documentação e Arquivo histórico do Museu Municipal de Portimão

Hoje, dia 16 de Dezembro, a maioria dos membros do Clube de História foi conhecer de perto as fontes para a história local.

Fomos recebidos pela Dra Isabel Soares que explicou aos alunos como fazer uma pesquisa no Centro de Documentação. Apresentou-nos os catálogos, as obras de referência e os estudos regionais. 

Membros do Clube com Dra Isabel Soares

Descobrir a história pode ser muito divertido...

 Os alunos familiarizaram-se com os instrumentos de pesquisa e calçaram as luvas para folhearem os manuscritos e os jornais antigos. A D. Aurora, assistente do arquivo ensinou os alunos a usarem o leitor de microfilmes que permitirá a leitura dos jornais locais que se encontram na Biblioteca Nacional.

Ruben, Daniela e Catarina manuseando o Registo de amas dos expostos

O entusiasmo foi grande para iniciar os trabalhos de pesquisa sobre a I República em Portimão.

Em breve iremos de férias. Voltaremos ao Arquivo em 2010, ano do Centenário da República.