Sabe o que são fumeiros?

Produção de figos secos

A produção de figo e a sua preparação para exportação era uma actividade muito importante no litoral do Barlavento algarvio até meados do séc. XX. Hoje as figueiras estão ao abandono e o figo deixou de ser comida de pobres devido à sua raridade e preço elevado.

Os figos secos alimentavam uma próspera actividade exportadora. A apanha e a preparação do figo ocupavam a população rural e urbana durante o verão. Os fumeiros eram armazéns onde se procedia ao tratamento do figo, amêndoa e alfarroba para a posterior exportação. Os empresários compravam matéria-prima aos produtores da região e a mão-de-obra ficava por conta das mulheres.

A parceria de exportação de figos do Algarve foi criada em 1891 por um grupo de ricos comerciantes da região, entre os quais José Libânio Gomes, pai de Mnauel Teixeira Gomes. A sua família tinha uma importante ligação com o estrangeiro a nível comercial, exportando produtos para a Holanda, Bélgica  e França. Manuel Teixeira gomes viria também a realizar viagens pela Europa neste âmbito. 

 Quando Manuel Teixeira Gomes é nomeado ministro plenipotenciário em Londres, em 1910, dá instruções ao irmão José Teixeira Gomes, sobre os cuidados a ter com a preparação do figo.

 Excerto das instruções: 

“É indubitável que o ponto principal d’este negócio consiste na boa qualidade e preparação do figo e muitas vezes tendo occasião de ver nos armazéns da concorrência como as mulheres o preparavam, verifiquei sempre que o faziam mal e de forma bem differente da usada no seu armazém. Os figos devem ser bem espalmados e postos nas ceiras de modo que nunca fiquem soltos, assentando um em cima dos outros da forma seguinte:

Convém aproveitar as mulheres que costumam trabalhar todos os annos nos meus armazéns, mas devem ser fiscalisadas como se nunca lá houvessem trabalhado.

Este ano devem preparar-se para terem 40 mulheres, pois sempre faltam muitas, e tendo 40 podem contar com 32 a 35 certas, todos os dias.

No que diz respeito a mulheres e mais trabalho de armazém poderá informá-los o Nobre, o qual, embora já esteja velho (e tramouco) será bem aproveitar para ter conta nas mulheres, mas arranjando logo outra pessôa que se vai industriando, para o substituir.

Um rapasito, Callisto Alvo, que há dois anos tem trabalhado no meu armazém está muito bem treinado na marcação dos ceirões; também o devem aproveitar.

Nunca devem pôr a marca a fogo no capacho ou tampa das ceiras, mas sim no corpo das ceiras e a marca a fôgo nos ceirões deve pôr-se no fundo, de modo a que se veja bem quando elles estão empilhados.  

(…)

Instruções ao irmão sobre os negócios em Antuérpia

O agente em Anvers é o Sr. R. Donas, que mora na Rue Rembrandt nº23. É pessoa que me merece inteira confiança e com quem sempre poderemos contar, mas não esquecemos nunca, para descontar no exagero de certas observações ou reclamações que elle por ventura faça, que um agente tem sempre tendencia para favorecer o interesse dos compradores, de quem depende mais directamente do que dos vendedores. O agente tem 1% sobre a importancia de todas as operações feitas na Bélgica e mais as despesas de telegrammas e correio e todos os negócios teem de ser feitos com a sua intervenção. Há por ano uma exepção a esta ultima parte, que é no que se refere à casa:

Arthur van Lidth

4, Longue rue de la Lunette

Anvers

Com a qual, depois de um pleito que o Sr. Donas lhe moveu, me entende directamente dando no entanto communicação de tudo ao Sr. Donas. Este Sr. A. Van Lidth é homem difficil de tratar e é bom que deste já fiquem avisados de que se deve evitar toda e qualquer confusão entre o seu nome e nome de Getave van Lidth (que é também nosso freguez) com quem elle está a ferro e fogo, embora seja seu irmão. Fica pois entendido que o único freguez com quem temos correspondência directa é o Sr. Arthur van Lidth mas d’essa correspondencia teremos sempre de dar communicação ao Sr. Donas, para que este esteja ocorrente de tudo e nos possa defender em Anvers quando por ventura surja alguma difficuldade com o Sr. Arthur van Lidth.

[…]

Em tudo quanto se escrever ao Sr. Arthur van Lidth é indespensavel usar de máxima prodencia, nunca fazendo affirmações cathegoricas sem ter a obsoluta certeza de as poder cumprir, porque elle agarra-se à mínima indicação para fazer exigências exageradas, quando lhe convém. Mas este Snr. merece-nos muita attenção porque é o mais importante (ou um dos mais importantes) dos nossos freguezes.

(…)”

 

Carta de Manuel Teixeira Gomes dando instruções ao seu irmão, José Teixeira Gomes sobre como este deve gerir o negócio da família -exportação de fruta algarvia (s.l c. 1911),

Museu da Presidência da República

 

   Autoras:

  Luana Marques e  Sofia Realista, 12º C